quinta-feira, 28 de março de 2013

Páscoa: Coelho no Ovo e Cordeiro na Cruz

 ♫"Coelinho da páscoa que trazes pra mim? Um ovo, dois ovos, três ovos assim.
Coelhinho da páscoa que cor eles têm? Amarelo, vermelho e verde também..."♫

Tudo tão redondo, tudo tão doce!! Chegou a páscoa sem dúvida! Doce época para os comerciantes, uma estimativa de aumento de venda de chocolates de pelo menos 25% frente a uma supervalorização do chocolate em forma de ovo de 500 a até 1000%... ah, momento memorável...

Independente de sua crença, cor, tamanho ou idade, você já descobriu, um dia, que coelhos não põem  ovos, especialmente de chocolates, e então, sem dúvida, lhe veio a pergunta: "O que tem a ver o tal do coelho com o tal do ovo?" Pergunta essa que todos já fizemos, mas poucos vão buscar a resposta.

Para responder essa pergunta, precisamos voltar num tempo em que o próprio cristianismo estava longe de se tornar uma religião. Em várias antigas culturas espalhadas no Mediterrâneo, no Leste Europeu e no Oriente, observamos que o uso do ovo como presente era algo bastante comum. Em geral, esse tipo de manifestação acontecia quando os fenômenos naturais anunciavam a chegada da primavera.

ORIGEM DOS SÍMBOLOS
Não por acaso, vários desses ovos eram pintados com algumas gravuras que tentavam representar algum tipo de planta ou elemento natural. Em outras situações, o enfeite desse ovo festivo era feito através do cozimento deste junto a alguma erva ou raiz impregnada de algum corante natural. Atravessando a Antiguidade, este costume ainda se manteve vivo entre as populações pagãs que habitavam a Europa durante a Idade Média.

Nesse período, muitos desses povos realizavam rituais de adoração para Ostera, a deusa da Primavera. Em suas representações mais comuns, observamos esta deusa pagã representada na figura de uma mulher que observava um coelho saltitante enquanto segurava um ovo nas mãos. Nesta imagem há a conjunção de três símbolos (a mulher, o ovo e o coelho) que reforçavam o ideal de fertilidade comemorado entre os pagãos, cujo ápice de suas festividades era a prostituição (orgia) ritual em seus templos. Nessas circunstâncias, dar um ovo simbolizava o desejo de fertilidade para a família do destinatário, e também, um sutil convite para unir-se a ele nos rituais de orgias no templo.

O símbolo do "ovo cósmico" era representado por um dos mais antigos impérios, a china, como a eternidade, o ciclo infinito da história desse mundo, e também do caráter dos deuses, que foi tomando forma até chegar ao símbolo do Yin-yang, um pouco de bem dentro do mal, um pouco de mal dentro do bem, e assim se repetia eternamente.

A entrada destes símbolos para o conjunto de festividades cristãs aconteceu com a organização do Concilio de Nicéia, em 325 d.C.. Neste período, os clérigos tinham a expressa preocupação de ampliar o seu número de fiéis por meio da adaptação de algumas antigas tradições e símbolos religiosos pagãos que o povo já estava familiarizado a outros eventos relacionados ao ideário cristão. Assim foi unido os rituais de fertilidade à páscoa cristã. A partir de então, observaríamos a pintura de vários ovos com imagens de Jesus Cristo e sua mãe, Maria.

No auge do período medieval, nobres e reis de condição mais abastada costumavam comemorar a Páscoa presenteando os seus com o uso de ovos feitos de ouro e cravejados de pedras preciosas. Até que chegássemos ao famoso (e bem mais acessível!) ovo de chocolate, foi necessário o desenvolvimento da culinária e, antes disso, a descoberta do continente americano, para que os espanhóis, em contato com os maias e astecas, popularizassem o uso de ovos no Velho Mundo, e duzentos anos mais tarde, um toque francês de culinária para fazer ovos de chocolate. Depois disso, a energia desse calórico extrato retirado da semente do cacau levemente cafeinado também reforçou o ideal de renovação sistematicamente difundido nessa época.

PÁSCOA ISRAELITA
Ok, descobrimos de onde veio o ovo e o chocolate, mas afinal, o que isso tem a ver com a páscoa cristã?

Antes de mais nada, é importante conhecer o que a bíblia chama de "dia"
·         No relato da criação de Gênesis nos é mostrado o dia começando na parte escura (tarde) e terminava na parte clara (manhã), assim sendo, a viração do dia (Gn 3:8)  era no crepúsculo, no pôr do sol. (cf. Gn 1:5, 8, 13, 19, 23, 31).
·         Lv 23:32 deixa claro que o sábado deve ser guardado "de uma tarde a outra"
·         Todas as leis cerimoniais que declaravam alguém imundo por um dia, dizia que seria "imundo até a tarde", quando se iniciaria um novo dia. (cf. Lv 11:25, 27, 28, 31, 32, 39, 40; 14:46; 15:5, 7, 10, 16, 27 etc.)

Assim sendo, o dia era do pôr do sol de um dia até o pôr do sol de outro dia.

A Páscoa fora estipulada por Deus entre a nona e décima praga egípcia, Deus estipulou a Moisés uma série de exigências para que fosse realizada a cerimônia, o capítulo 12 de Êxodo descreve essa primeira Páscoa com 6 características.
  1. Um cordeiro para toda a família, se a família fosse pequena poderia juntar com outra família (vss. 3, 4)
  2. Cordeiro macho, sem defeito, um ano de idade. (vs. 5)
  3. Cordeiro escolhido dia 10 e imolado (preparado) dia 14 de Nisan ao pôr do sol. (vss. 3, 6)
  4. O sangue do cordeiro seria passado nas ombreiras da porta para poupar essas casas. (vs. 7)
  5. O animal seria comido bem passado, sem sangue naquela noite, dia 15. (vs. 8, 9)
  6. Se sobrasse, o resto deveria ser queimado antes de amanhecer o novo dia. (vs. 10)
Seguindo a Páscoa, já se iniciava a segunda festa, a festa dos Pães Asmos, que se iniciava no dia 15 de Nissã (Lv 23:6), que perduraria por sete dias, cujo primeiro e último dia seria "santa convocação" (Ex 12:15; Lv 23:7, 8), e carregava consigo algumas exigências também:
  • Já no dia da páscoa seria comido apenas Pães Asmos e ervas amargas. (vs. 18)
  • Sete dias sem fermentos ou fermentação em casa. (vs. 19, 20)
  • Deveria ser lembrada como o dia da redenção. (vs. 17)
 É importante ressaltar que o cordeiro da Páscoa era sacrificado no dia 14 no crepúsculo, e assim que anoitecia já era dia 15 no calendário bíblico, assim eles sacrificavam o cordeiro no entardecer e o comiam quando já estava escuro junto com os Pães Asmos.

Em suma, a Páscoa fora dada para lembrar que Deus "passou por cima da casa dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas." Ex 12:27, enquanto a festa dos Pães Asmos fora dada para lembrar que "neste mesmo dia, tirei vossas hostes das terras do Egito." Ex 12:17.

PÁSCOA CRISTÃ
"Porque a lei, tendo a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, não pode nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem de ano em ano, aperfeiçoar os que se chegam a Deus." Hb 10:1.

Todos os rituais do santuário terrestre foram dados como um sombra, uma representação do que Deus realmente faria por Seu povo. Era acima de tudo, uma revelação e promessa de Seus atos futuros.

Um símbolo ou sombra reflete algo maior, mais vívido e real, e os sacrifícios da Páscoa Israelita deveriam se cumprir no ministério de Cristo a fim que não fosse mais necessário esses ritos no cristianismo hoje. E assim foi.

Seguindo os mesmos 6 passos destacados para a festa da Páscoa, Jesus cumpriu cada um deles.
  1. Cristo apenas remiu a muitos (todos quanto aceitaram), como o cordeiro remia a família. (Mt 20:28)
  2. Jesus foi o cordeiro sem defeito. (1 Pe 1:18-19)
  3. Jesus entrara em Jerusalém aclamado no domingo (dia 10), sendo assim o cordeiro escolhido (Mt 21), e fora preparado para remir a humanidade na Páscoa (Quinta-feira, dia 14). (Mt 26:2)
  4. O sangue de Cristo banharia o crente para poupa-lo do pecado e destruição. (At 20:28; Hb 10:19; 1 Pe 1:2)
  5. Cristo fora moído naquele dia, no dia em que era comida a Páscoa. (Lc 22:1, 15)
  6. O sacrifício de Cristo fora completo, sem sobras, sem brechas, sem nenhum trabalho a ser deixado para o dia seguinte. (Hb 9:26; 10:14, 18, 26)
Cristo cumpre não apenas as características da páscoa, mas ainda o significado dela, que assim como o Destruidor "passou por cima" da casa dos Israelitas, destruindo apenas os que não tinham o sinal do sangue do cordeiro, no dia do Juízo final, a destruição "passará por cima" do Israel espiritual, destruindo apenas os que não tiverem o sinal do sangue do Cordeiro de Deus.

Cristo cumpriu também a festa dos Pães Asmos. Deus disse que essa festa seria santa convocação para lembrar que "neste mesmo dia, tirei vossas hostes das terras do Egito." Ex 12:17. E foi mesmo, nesse mesmo dia, no dia da crucificação de Jesus, que o Israel espiritual foi liberto da culpa do pecado (Rm 6:20; Gl 5:1):.

Então Jesus não morreu na Páscoa?
Quatro coisas precisam ser consideradas antes de responder essa pergunta:
  1. A Bíblia afirma que Jesus comeu a Páscoa com Seus discípulos no dia de sua morte (Mt 26:18-20). Se Ele comeu a Páscoa após o pôr do sol, e o dia de se comer a Páscoa era dia 15 de Nisan, então Ele morreu no dia 15, a menos que Ele mesmo tenha adiantado a comemoração da Páscoa, coisa que Ele não poderia fazer uma vez que veio para cumprir a lei (cerimonial e moral), e não transgredi-la ou muda-la (Ml 3:10; Tg 1:17).
  2. Jesus e Barrabás foram expostos ao público a fim de que um fosse solto por ocasião da festa (Mt 27:15). A páscoa era sacrificada em família ou grupos no dia 14 (Mt 26: 18-20), mas a "santa convocação", ou seja, a festa propriamente dita ocorreria apenas no dia 15 (Lv 23:6-7). Os fariseus temiam o alvoroço da festividade (Mt 26:5).
  3. A profecia das 70 semanas marca o meio da 70ª semana como a morte de Cristo. Longe de qualquer questionamento, o estudioso Juarez de Oliveira demonstrou com cálculos astronômicos avançados que o início dessa contagem ocorre no ano 457 a.C., marcando o início da 70ª semana no ano 27 d.C., o meio dela no ano 31 d.C, e o final no ano 34 d.C. (OLIVEIRA, Juarez R. Chronological Studies Related to Daniel 8:14 and 7:24-27, Engenheiro Coelho, SP: UNASPRESS, 2004). Jesus morreu no "dia da preparação" (Mt 27:62; Mc 15:42; Lc 23:54; Jo 19:31) que era claramente o sexto dia (Ex 16:5, 22, 23, 29), nunca o dia anterior a um sábado cerimonial foi chamado de "dia da preparação". No ano 31, o dia 14 de Nisan caiu numa quinta-feira, assim, a sexta-feira da crucificação era dia 15.
  4. Ellen White afirma: "Era a ultima Páscoa que Jesus comemoraria com seus discípulos. Ele sabia que Sua hora chegara; Ele mesmo era o verdadeiro Cordeiro Pascal, e no dia em que se comia a Páscoa, devia Ele ser sacrificado." (O Desejado de Todas as Nações, 642 [Cap. Servo dos Servos])
CONCLUSÃO
Cristo fora jogado no madeiro para cumprir a cerimônia necessária para a purificação do pecado do povo. Dt 21:22-23 afirma que todo aquele que for pendurado no madeiro será "maldito de Deus" e assim mesmo que Cristo, que não conheceu pecado, se fez pecado por nós (2 Co 5:21) e por cause de nossos pecado imputados sobre Ele, Ele mesmo se tornou maldito de Deus, para que pudesse nos resgatar da nossa maldição (Gl 3:13) e pudesse nos imputar a Sua justiça.

A Páscoa, a morte do cordeiro, não teria valia alguma não fosse a consumação na segunda parte, o comer a Páscoa. Aquele hebreu que matou o cordeirinho e não o comeu ou não passou o seu sangue nos umbrais da porta, infelizmente também teve o seu primogênito ceifado. A morte de Cristo é a consumação do plano da redenção, Ele sendo o cordeiro pascal consumou o plano redentor com as belas palavras "está consumado" (Jo 19:30). Mais que um sacrifício, a Sua morte foi a consumação do plano que fora estabelecido por Deus antes de mesmo da fundação do mundo (Mt 25:34; 1 Pe 1:20).
Nunca esqueçamos de contar ao nosso próximo a razão de nossa fé, e o verdadeiro significado dos símbolos bíblicos. 

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